Cuba à deriva: reportagem de VEJA mostra o colapso da ilha, agora na mira de Trump

Lixo nas ruas, apagões, falta de comida e de esperança evidenciam o estado de falência do sistema socialista do país

Publicado em 03 de abril de 2026 • Fonte: Revista Veja
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MAU CHEIRO - Lixo acumulado nas ruas da capital: a coleta foi interrompida por falta de combustível

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Sair do aeroporto de Havana, a capital de Cuba, no início da madrugada, exige do passageiro uma rápida adaptação da visão: ele deixa para trás a luz fluorescente que ilumina cartazes turísticos amarelados e entra no breu quase total das ruas mal iluminadas pelos faróis dos poucos carros que transitam e pelo brilho do celular de pessoas nas calçadas, cheias de lixo acumulado. Dependente de importações para suprir boa parte do petróleo que consome, a ilha entrou em colapso desde que, em janeiro, os Estados Unidos depuseram Nicolás Maduro, na Venezuela, e cortaram totalmente as entregas, tanto de seu principal fornecedor quanto de quem se dispusesse a tomar seu lugar.

O impressionante estágio acelerado de degradação foi testemunhado pela reportagem de VEJA, que percorreu o país durante uma semana. A escassez de combustível elevou à máxima potência uma profunda crise econômica que já dura anos e faz de Cuba uma nação onde atualmente falta tudo — inclusive esperança. “Todos os cubanos pensam em ir embora. Se pudesse me mudar para o Irã, eu iria”, desabafou, com o exagero dos desesperados, Marisol (que preferiu não dar o sobrenome), 28 anos, sentada na varanda da casa às escuras.

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CRISE - Hospital sem recursos: agonia do sistema de saúde que já foi referência

Mais de dois meses depois do início do embargo total, na segunda-feira 30, um navio russo transportando 700 000 barris de óleo recebeu a bênção de Donald Trump para atracar na ilha. “Não vai ter grande impacto. Cuba está acabada”, desdenhou o presidente americano. A carga deve aliviar por algumas semanas o sufoco energético, da mesma forma que uma flotilha humanitária internacional levando alimentos, remédios e outros itens essenciais pode amenizar os efeitos de um arcabouço social — transporte, educação, abastecimento, saneamento, saúde — em frangalhos.

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“TUDO PIOROU” – Professora aposentada, Eva Martínez, 82 anos, recebe uma pensão irrisória e depende da ajuda dos filhos para se sustentar. Diz, com orgulho, que participou do esforço nacional de alfabetização em Cuba, nos anos 1960, e se preocupa com as crianças que passam dificuldade atualmente. Saudosista, afirma que a vida era melhor no passado. “Havia comida, havia educação”, recorda.

Um dos pilares da revolução comandada por Fidel Castro — que assumiu o poder em 1959 e cujos herdeiros lá estão até hoje —, o sistema universal de saúde cubano, que já foi considerado modelo, mal consegue oferecer o básico. No Hospital Materno Ramón González Coro, próximo ao Parque John Lennon, em Havana, as luzes ficam apagadas de dia e a energia é canalizada apenas para o funcionamento de respiradores e equipamentos críticos. Ambulâncias permanecem estacionadas na frente do prédio, por falta de combustível. Sem diesel para mover as máquinas e sem insumos importados desde que, sem querosene de aviação, os voos para a ilha foram drasticamente reduzidos, a produção de medicamentos parou. Estoques de vacinas e produtos refrigerados correm o risco de estragar.

No máximo 3% da população consegue obter medicamentos nas farmácias do sistema de saúde, totalmente controlado pelo Estado, segundo análise do Observatório Cubano de Direitos Humanos. A escassez é tal que médicos recomendam a pacientes tentar conseguir remédios com parentes que moram fora ou comprar no mercado negro — vendedores posicionados estrategicamente em ruas movimentadas da capital oferecem quase tudo, de multivitamínicos a ansiolíticos e tarjas-pretas fabricados nos Estados Unidos.“Praticamos uma medicina de guerra”, disse a oncologista Raiza Ruiz. “Temos que escolher quem recebe anestesia ou não”, desabafou uma médica em outro hospital, onde os laboratórios para exames só funcionam três dias por semana e cujos funcionários precisam andar quilômetros para chegar ao trabalho, já que poucos ônibus circulam e o preço das corridas de táxi se tornou proibitivo.

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NOITE ESCURA – Cidade no breu: usinas obsoletas provocam apagões frequentes, que se espalham por todo o país

O litro de gasolina custa perto do equivalente a 50 reais, e encher o tanque de um carro popular corresponde a três anos do salário médio de um profissional com diploma universitário — o que, aliás, leva muitos a abandonar a carreira. “Ganho dez vezes mais trabalhando em um hostel e recebendo gorjetas dos turistas”, contou uma cirurgiã formada pela Universidade de Havana. O desabastecimento nas bodegas, as mercearias estatais onde a população adquire itens básicos em sistema de racionamento, que já era grave devido à persistente crise econômica, atingiu dimensão dramática. “O pouco que chega vai embora rápido”, disse o funcionário de um mercado, apontando para um único saco de feijão na prateleira. Em Regla, cidade próxima à capital, a professora aposentada Eva Martínez, 82 anos, lamentava a penúria. “Tenho filhos que me ajudam, mas e quem não tem? Eu como algum docinho e fico bem, mas e as crianças em fase de crescimento?”, perguntava Eva, que recebe pensão de cerca de 2 000 pesos por mês, o preço de duas dezenas de ovos.

A inflação bate em 10% e a cotação do dólar americano — que atingiu o recorde de mais de 400 pesos no mercado informal — corrói a moeda local. Segundo cálculo do Programa de Monitoramento Alimentar, aposentados como Eva precisariam de 41 735 pesos (quase 100 dólares no mercado informal, uma renda impensável na realidade cubana) para garantir um mês de alimentação decente. O Unicef, braço da ONU que trata da infância, estima que um décimo das crianças na ilha vive em condições de “grave insegurança alimentar”, e o Observatório Cubano de Direitos Humanos avalia que sete em cada dez habitantes já deixaram de fazer três refeições diárias, seja por falta de dinheiro, seja por escassez de alimentos.

Extraoficialmente, calcula-se que mais de 80% dos cubanos se situem no nível de extrema pobreza — o que significa que uma minoria vive melhor do que a maioria, quadro que o governo se recusa a reconhecer e que matou todos os sonhos de igualdade socialista. Nas áreas turísticas da capital, como as ruas próximas ao Museu Nacional de Belas Artes — que só abre aos sábados e domingos, em horário reduzido, para economizar energia —, pessoas reviram o lixo amontoado nas calçadas, já que os caminhões de coleta deixaram de circular. Nas áreas à beira-mar, o Malecón, o esgoto transborda dos bueiros, entupidos pela sujeira. Os apagões constantes da rede elétrica sobrecarregada e obsoleta impedem o funcionamento das bombas que levam água às estações. Carros-pipa abastecem escolas, clínicas e edifícios públicos enquanto os moradores, munidos de baldes, fazem fila para obter água. A cada dois dias, o pedreiro Ángel Díaz empurra um carrinho improvisado, com dois tonéis de 80 litros, por quinze quadras, até o prédio onde mora sua tia, que é idosa e tem problemas de locomoção. “Sem água não se vive. E sem petróleo não temos água”, resumiu.

Antes do bloqueio, Cuba consumia 100 000 barris de petróleo por dia, dos quais 40 000 vinham de produção própria, 30 000 procediam da Venezuela, a preços módicos, e o restante era importado principalmente do México e da Rússia. A brusca mudança de cenário em janeiro levou o governo a tomar medidas inéditas. As poucas empresas particulares tiveram permissão para comprar combustível diretamente, contornando o monopólio estatal. Mais revolucionária ainda foi a autorização, em março, para que cubanos residentes no exterior abram negócios e invistam em infraestrutura na ilha, ampliando a tímida abertura à iniciativa privada da década de 1990, quando o colapso da União Soviética e a perda de seu apoio econômico mergulharam Cuba em recessão profunda — o famigerado “período especial”, que até hoje causa arrepios. O sentimento predominante é de que a crise atual pode repetir a dose intragável e dramática de privação e penúria daqueles tempos. “Cuba é um enorme pátio de cortiços. Voltamos a ver fogão a lenha na porta de casas em pleno centro de Havana”, disse a jornalista Lien Estrada.

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NA PAREDE - Díaz-Canel (à dir.) junto dos irmãos Castro: impopular e à espera da intervenção americana

Um início de aproximação com os Estados Unidos (que mantém a ilha sob rigoroso embargo comercial desde 1960) no governo Barack Obama e a instalação de resorts na orla reservados a estrangeiros reduziram as dificuldades econômicas, mas o alívio não durou muito. O primeiro governo Trump cortou os contatos diplomáticos e a pandemia devastou a indústria do turismo, agora paralisada por apagões e falta de combustível. Hotéis luxuosos construídos na última década pela Gaesa, o conglomerado militar que controla grande parte da economia, estão às moscas. Cuba atraiu apenas 1,8 milhão de visitantes em 2025, o menor número em mais de duas décadas. “Isso significa menos moeda estrangeira, menor capacidade de importação e maior pressão sobre o abastecimento interno”, disse Germán Quintero, pesquisador do Programa de Monitoramento Alimentar.

Em meio à insatisfação crescente contra o regime ditatorial, o número de protestos documentados pela Cubalex, uma organização de direitos humanos com sede em Washington, subiu de trinta, em janeiro, para 130, na primeira quinzena de março. Em meados do mês passado, em raro ataque direto a um símbolo, manifestantes saquearam e depredaram a sede do Partido Comunista em Morón, no centro. A onda de revoltas poderia ser mais turbulenta, não fosse o temor de que se repitam as prisões em massa ordenadas pelo presidente Miguel Díaz-Canel para conter, em julho de 2021, a maior mobilização popular já vista contra o governo. “A prisão de opositores políticos é uma ferramenta sistemática do regime”, afirma Cristian Jiménez, da Anistia Internacional. A presença da polícia era maciça e ostensiva em um ato recente de alunos da Universidade de Havana, que se sentaram em uma praça na frente do campus para pedir melhores condições de ensino — sem transporte e sem luz, a reitoria trocou as aulas presenciais por cursos on-line, por sua vez inviáveis, dados os cortes recorrentes de energia e internet. “Não somos uma organização política. Só queremos uma solução para continuar os estudos”, afirmou Ian, 22 anos, estudante de letras.

Cercada de problemas por todos os lados, a ilha comunista, situada a apenas 145 quilômetros da Flórida, está na fila de Trump para alguma intervenção radical que traga o país para a órbita da Casa Branca — ele já declarou que, depois de tantos presidentes pisando em ovos para tratar da questão, será dele “a honra” de “tomar conta” de Cuba. À frente do projeto está o secretário de Estado Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos e porta-voz da muito influente diáspora nos Estados Unidos, que inclusive já estaria negociando com figuras de novas gerações da família Castro rumos para o país caribenho. O interlocutor mais citado é Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto e braço direito de Raúl Castro, irmão de Fidel que assumiu o poder quando ele morreu, em 2016, e hoje, aposentado aos 94 anos, continua a ter voz ativa em Havana. Outro parente na suposta linha de sucessão é Oscar Pérez-Oliva Fraga, sobrinho-neto de Fidel e Raúl, ministro do Comércio Exterior e vice-primeiro-ministro que foi à TV estatal anunciar a autorização histórica para que emigrantes invistam em negócios particulares na ilha.


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“LUTA DIÁRIA” – A falta de combustível impede que as bombas levem água até as casas, e os moradores de Havana têm de recorrer a caminhões-pipa. Neles, o pedreiro Ángel Díaz (à dir.), 36 anos, enche dois tonéis e os leva por quinze quadras, em um carrinho improvisado, até a casa de uma tia idosa. “Sem petróleo não tem água e sem água não se vive”, diz.

O agravamento da crise humanitária aprofunda um desejo generalizado de mudança que atravessa gerações, unindo na mesma ambição tanto os mais velhos, saudosos do acesso a saúde, educação e benefícios sociais de qualidade, quanto os jovens que sempre passaram dificuldades e não toleram mais o clima de autoritarismo. A divergência consiste no alcance da transformação almejada — se ela deve ou não desembocar na queda pura e simples do regime. “Espero que muitas coisas mudem, não porque o governo americano está pressionando, mas porque os cubanos querem mudanças para viver melhor”, disse a VEJA o premiado escritor Leonardo Padura.

Publicado em VEJA de 03 de abril de 2026, edição nº 2989