Escândalo Master: segredos de Vorcaro apavoram autoridades dos Três Poderes
Caso pode provocar uma crise política de proporções épicas se o banqueiro revelar tudo o que sabe
PÂNICO - Na cadeia em presídio de segurança máxima: chances de uma delação premiada aumentaram muito nos últimos dias
Desde novembro passado, quando foi preso pela primeira vez, Daniel Vorcaro é motivo de preocupação para integrantes das cúpulas dos Três Poderes, com os quais construiu uma relação de proximidade a partir da distribuição de favores diversos, de convites para festas à contratação de serviços de consultoria por valores milionários. Protagonista de uma das maiores fraudes bancárias da história brasileira, que deixou um rombo na praça de mais de 50 bilhões de reais, Vorcaro registrou parte do que conversou e negociou com parlamentares, ministros de Estado e juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) em seus aparelhos telefônicos. Pelo menos sete deles foram apreendidos e estão sendo periciados pela Polícia Federal. Esse trabalho ainda levará um tempo para ser concluído, mas as informações iniciais divulgadas serviram como amostra da dimensão monumental que o escândalo do Master pode alcançar. Em trocas de mensagens, por exemplo, Vorcaro faz referências a reuniões com os presidentes da República, Lula, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Segundo o jornal O Globo, ele também aparece num intrigante diálogo, quando a cadeia já despontava em seu horizonte, pedindo ajuda ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
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Mesmo depois de se tornar alvo das investigações, o agora ex-banqueiro nunca detalhou os termos de suas relações com as autoridades. Esse cenário pode mudar — e a mera hipótese de Vorcaro contar tudo o que sabe deixou integrantes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário em pânico. Hoje, Brasília está acuada à espera de uma delação premiada de Vorcaro, que se tornou uma possibilidade depois de ele ser preso novamente, no último dia 4, e trancafiado num presídio de segurança máxima. A preocupação com uma eventual colaboração ganhou contornos ainda maiores depois que o ministro do STF André Mendonça, relator do caso Master, autorizou Vorcaro a se reunir com sua equipe de advogados em um ambiente absolutamente reservado. Ou seja: sem testemunhas, como é de praxe. “Está todo mundo apavorado”, resumiu a VEJA um dos parlamentares mais influentes do país.
As delações premiadas se tornaram uma marca dos últimos escândalos de corrupção. Foram realizadas, por exemplo, por executivos da Odebrecht e pelos donos da JBS. Muitas vezes não resultaram em condenações judiciais, porque acabaram anuladas ou careciam de provas, mas mesmo assim provocaram uma hecatombe no mundo político, sepultando reputações e carreiras. No caso do Master, Vorcaro está sendo pressionado pela família dele a fechar uma colaboração com a Justiça, mas considera ainda haver espaço para negociar um acordo em que assumiria crimes de menor gravidade, como gestão temerária. Nessa hipótese, ele pagaria uma multa bilionária, encerraria o caso e tentaria ficar em liberdade. É um cenário cada vez mais improvável. A crise não se resume mais apenas à situação particular do ex-banqueiro e tem colocado em xeque a credibilidade de certas instituições e de seus mais importantes porta-vozes. A relação entre Vorcaro e juízes do STF ilustra o quão delicada é a situação.
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Os fatos são conhecidos. Uma empresa do ministro Dias Toffoli fechou negócio milionário com um fundo ligado ao Master. A notícia levou o Supremo a afastar o ministro da relatoria do processo sobre o banco, numa tentativa de conter danos de imagem ao tribunal. Depois disso, surgiu a informação de que Vorcaro trocou mensagens com o ministro Alexandre de Moraes no dia em que foi preso em novembro passado. Nelas, prestava conta sobre negociações para salvar o banco e perguntava ao magistrado: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Àquela altura, Vorcaro já sabia que havia uma ordem de prisão contra ele. “Alguma novidade?”, insistiu. De acordo com a reportagem de O Globo, as mensagens foram recuperadas pela Polícia Federal após uma perícia nos celulares apreendidos com o ex-banqueiro. Não é possível saber o que Moraes respondeu porque os diálogos ocorreram em modo de visualização única, em que o conteúdo é destruído depois de lido.
Esse é um tipo de dúvida que pode ser esclarecido por eventual delação premiada. Fazia tempo que Moraes era pressionado a se explicar. De início, cobravam-se esclarecimentos sobre o contrato que o escritório de advocacia da esposa dele, Viviane Barci de Moraes, fechou com o Master, com previsão de pagamento de 129 milhões de reais em três anos. Os diálogos com Vorcaro apertaram o cerco. Acossado, Moraes negou ter sido o destinatário das mensagens e afirmou que o STF está sob ataque por sua defesa da democracia. Na verdade, o que há são dúvidas sobre a atuação particular de alguns de seus integrantes, com potencial para abalar a credibilidade da Corte. Segundo pesquisa divulgada pela Genial/Quaest na quinta 12, a imagem do Supremo bateu um recorde negativo: quase metade dos brasileiros diz não confiar na instituição. Em reunião com representantes de tribunais superiores e de segunda instância, o próprio presidente do STF, Edson Fachin, mesmo sem citar o Master, disse que os juízes devem se manter distantes “das partes e dos interesses em jogo”. Na sequência, anunciou em encontro fechado que, “no que depender dele”, as investigações vão avançar, “doa a quem doer”.
Entre alguns integrantes dos Três Poderes, todo o esforço é para que as investigações não avancem. Ou avancem o mínimo possível. Ou sacrifiquem apenas umas poucas cabeças, como forma de saciar a sede de justiça, preservando a maioria dos implicados em suspeitas de corrupção e tráfico de influência. Nos bastidores, por enquanto, é cada um por si. A regra é atenuar o próprio erro e potencializar o pecado do outro. Em conversas reservadas, ministros do Supremo, por exemplo, elencaram atos da antiga e da atual diretoria do Banco Central sobre o Master, reuniões de Lula e de outros auxiliares do presidente com Vorcaro e eventos patrocinados pela instituição financeira. Eles também lembram que o senador Ciro Nogueira — presidente do PP, expoente do Centrão e ex-chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro — apresentou uma emenda que cairia como luva para os negócios do Master.
O problema maior, portanto, não estaria no Judiciário, afirma um ministro do STF. Esse mesmo juiz até admite a possibilidade de Dias Toffoli tirar uma licença médica como forma de reduzir a pressão sobre a Corte, mas defende Moraes, alegando que as mensagens entre ele e Vorcaro configurariam mera imprudência, sem consequências criminais. “É ruim ter contato, sobretudo nas circunstâncias em que dizem que o Alexandre de Moraes teve, mas existem fatos muito mais graves. Vorcaro estava montando uma central de arapongagem e invadindo processos”, completou o magistrado. No Congresso, o diagnóstico é diferente. Nos bastidores, parlamentares têm destacado que, até aqui, só foi descoberto repasse de dinheiro grosso do Master para a empresa da família Dias Toffoli e para o escritório da esposa de Alexandre de Moraes. Diante disso, líderes do Centrão afirmam, em tom de ameaça, que se houver punição a deputado ou senador ela será precedida ou acompanhada de impeachment de ministro do Supremo.
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Antigo objeto de desejo dos aliados de Bolsonaro, a cassação de um juiz do STF depende de votação no Senado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já engavetou uma centena de pedidos desse tipo. Ele também tem segurado a ofensiva de congressistas pela instalação de uma CPI do Master, banco que recebeu 400 milhões de reais de investimentos do fundo de previdência dos servidores públicos do Amapá, que era comandado por um aliado e tem como conselheiro um irmão do senador. Sob a alegação de que há outros temas mais importantes na agenda, Alcolumbre e Motta fazem o possível para barrar apurações legislativas sobre a fraude financeira. A tentativa de uma operação abafa, que une setores do Judiciário e do Legislativo, ganhou adeptos também no Executivo. Um dos principais aliados de Lula aconselhou o presidente a tentar colocar um cabresto nas apurações feitas pela Polícia Federal. Ele alegou que o escândalo do Master, somado ao esquema bilionário de roubo contra aposentados e pensionistas do INSS, está criando um clima de Lava-Jato e reforçando a sensação de corrupção generalizada.
Esse quadro, segundo o conselheiro de Lula, afetaria a imagem do presidente porque, com ou sem razão, a população tende a responsabilizar o governante de turno pelo que está ocorrendo. O tal clima de Lava-Jato também daria força aos rivais do petista na próxima corrida presidencial. Pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira 11 reforça essa análise. O levantamento revelou o crescimento das intenções de voto no senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que empata com Lula nas simulações de segundo turno, o aumento da desaprovação ao governo e o avanço da corrupção no ranking de preocupações dos eleitores. Agora, a roubalheira aparece em segundo lugar, com 20% de menções, atrás apenas da violência, com 27%. Para surfar essa onda, Flávio assinou o requerimento de instalação da CPI do Master — é bem verdade que o fez depois que o número mínimo de assinaturas já estava recolhido. Numa tentativa de reação, a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, recorreu a uma rede social: “O fato é que foi no governo do presidente Lula que a PF investigou e levou à Justiça as falcatruas e o BC decretou a liquidação do Master. O resto é papo furado da extrema direita”.
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Conhecido por seu instinto de vingança, Lula de início considerou positiva a investigação sobre o Master, que, na visão dele, abria uma janela para um acerto de contas com Dias Toffoli. O ministro caiu em desgraça com o presidente depois de proibi-lo, quando estava preso, de participar do velório de um de seus irmãos. Para o petista, a apuração da PF poderia obrigar Toffoli a se aposentar para fugir de uma eventual condenação ou impeachment. Não foi o que aconteceu. O ministro continua a atuar normalmente, apenas um pouco mais contido. Depois de ser sorteado para relatar o pedido destinado a obrigar o Congresso a instalar a CPI do Master, Toffoli se declarou suspeito. Ele também não participará do julgamento que vai analisar a manutenção ou não da prisão de Vorcaro.
Em vez de atingir apenas um desafeto do presidente, as investigações resultaram em risco de dano generalizado. Acuados, representantes dos Três Poderes têm a esperança de que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que participou de uma degustação de uísque no exterior bancada por Daniel Vorcaro, controle o trabalho de seus subordinados, o que não é simples de ser feito. Eles também querem que uma eventual delação premiada do banqueiro seja derrubada pelo Supremo, o que já ocorreu anteriormente. Para que isso dê certo, será necessário combinar com os investigadores e com o ministro André Mendonça. Ele sempre foi tratado com desdém por alguns colegas do STF, que o consideram um juiz menos afeito aos jogos de poder. Esse suposto defeito é, na verdade, uma qualidade. Sob os cuidados de um julgador preocupado apenas com os autos, os segredos de Vorcaro, além de apavorar, podem passar a República a limpo. Doa a quem doer, como disse o ministro Fachin.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986