Ao avançar sobre a Groenlândia, Trump abala alianças de décadas com a Europa
Usando como um dos pretextos a proteção contra uma ameaça russa, o presidente americano se iguala à política expansionista de Vladimir Putin
ESQUENTOU - Protesto na capital Nuuk: a população sai às ruas para agitar faixas anti-EUA
Por oito décadas, desde que os Estados Unidos emergiram dos escombros da Segunda Guerra Mundial introduzindo no dicionário da geopolítica moderna a noção de superpotência, o país exerceu a hegemonia fiando-se em um conjunto de regras e instituições sólidas e democráticas. Legitimou suas ações planeta afora, e não foram poucas, ainda que criticadas, à base de alianças bem tecidas. Brotaram então estatutos e organizações que estabeleceram pilares para a construção de uma nova ordem alicerçada na cooperação e em valores como a defesa dos direitos humanos e a liberdade de pensamento. Do lado ocidental, americanos e europeus se uniram para formar a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, o pacto militar voltado para conter a então poderosa União Soviética.
Não que os aliados históricos tenham sempre conseguido fugir da discordância em tópicos relevantes, mas jamais se viu algo de tamanha aspereza quanto a rachadura provocada agora pelo atual ocupante da Casa Branca, Donald Trump, depois de avisar (assim mesmo) que pretendia anexar a Groenlândia. Para quem acabou de chegar de Marte e não sabe do que se trata, convém uma rápida explicação: é aquele território frio no topo da América do Norte, agora na mira de Trump justamente pela posição estratégica que ocupa — é o caminho mais curto entre o continente americano e a Europa, rico em rotas que se ampliam conforme o Oceano Ártico passa por um severo degelo e abundante em preciosos minerais com potencial de fazer a roda da economia girar.
Desde que Trump voltou ao poder, não há semana em que o intrincado xadrez da política internacional não seja sacudido por alguma novidade de peso, daquelas capazes de mexer com arranjos bem consolidados na era moderna. O avanço sobre a Groenlândia, porém, ganha vulto por embutir o risco de desfazer uma parceria que deu ao Ocidente suas atuais feições, uma vez que a ilha no Círculo Polar Ártico é território semiautônomo da Dinamarca, membro da Otan. É também mostra cabal das afiadíssimas garras do presidente americano sobre o globo. Seu afã de moldar o mundo a seu feitio, impondo poder sem os contrapesos de antes, disposto a rasgar a cartilha de seus antecessores, o aproxima de características típicas de autocratas tais como Vladimir Putin, o presidente da Rússia que Trump alega precisar conter na região em prol da segurança dos EUA e de todo o Hemisfério Ocidental.
FINCANDO BANDEIRA – A imagem de IA postada por Trump ao lado de Rubio e Vance: sonho acalentado desde o primeiro mandato
Sem meias-palavras, o americano foi direto ao ponto, ao dizer que “a Dinamarca falhou em conter a ameaça russa” e “que agora é hora e isso será feito”. Fez questão, ainda, de expelir uma outra provocação à nação nórdica, bem ao seu estilo polêmico e sem filtro: “Ela caiu em seis horas frente à Alemanha na guerra”. Complica o jogo das ambições o fato de os dois líderes, Trump e Putin, serem como inimigos íntimos — rivais que alimentam objetivos expansionistas e compartilham o desprezo pelas normas em vigor. “Ambos têm a convicção de que podem impor seus interesses pela força tão somente porque dispõem dela, sem consensos”, diz Alexandre Coelho, especialista em relações internacionais da USP.
Ao chegar a Davos, na Suíça, para um concorrido Fórum Econômico Mundial, na quarta-feira 21, o republicano logo se alojou no lugar que mais gosta: com os holofotes voltados para si e fazendo questão de deixar clara a posição de superioridade dos Estados Unidos, postura insuflada pela exitosa ação militar em que apeou o ditador Nicolás Maduro da Presidência da Venezuela. “Quero que a Europa se dê muito bem”, começou, ainda amigável, lembrando inclusive a própria origem europeia (tem antepassados na Alemanha e na Escócia). A partir daí, não sobrou pedra sobre pedra do continente que vê como incapaz de fazer uso das riquezas sobre as quais está deitado e “agora não reconheço, vai na direção errada, é perdedor”. Não parecia nem de longe um aliado se dirigindo ao outro, o que só fez elevar a fervura de um caldeirão que ameaçava entornar depois de uma frenética movimentação de parte a parte desde que a questão do Ártico sacoleja o mapa-múndi.
INIMIGO ÍNTIMO – Putin: o russo compartilha com seu par americano o desprezo pelas regras e o afã por expandir poder
Na véspera da viagem a Davos, onde o tema que não constava na pauta oficial (“um espírito de diálogo”) dominou as conversas, Trump postou nas redes sociais uma imagem feita para provocar: por obra da inteligência artificial, lá aparecia ele plantando a bandeira americana na imensidão alva da ilha ao lado do secretário de Estado Marco Rubio e do vice JD Vance, a dupla entusiasta da ideia de comprá-la dos dinamarqueses ou, em solução menos desejada, tomá-la pela força (hipótese que o chefe tratou de descartar na Suíça). “Groenlândia — território dos Estados Unidos estabelecido em 2026”, anunciava uma placa na ilustração. “Não tem volta”, reforçou o presidente, que não demorou a brandir sua ferramenta favorita de intimidação — a imposição de tarifas —, desta vez contra oito nações europeias, entre elas o Reino Unido, a Alemanha e a França, que mais fortemente se opõem ao projeto Groenlândia.
Nas lombadas da crise que já cravou o ineditismo de um integrante da Otan se voltar contra os demais, algo jamais visto desde que o presidente Harry Truman formalizou a criação do órgão, em 1949, Trump, como não é raro, fez seus cálculos e resolveu ensaiar algum recuo. Em conversa fora do roteiro com o holandês Mark Rutte, o secretário-geral da aliança militar sabidamente dado a bajulá-lo, decidiu cancelar as taxas que, em momento de fúria, anunciou chegarem a 25%. No estilo morde e assopra que lhe é característico, soou manso: “Estamos definindo uma estrutura para um acordo com a Groenlândia” — o que, segundo adiantou, abarcaria o acesso ao tesouro mineral do lugar e a ajuda da Europa para erguer ali o Domo de Ouro (alusão ao Domo de Ferro israelense), sistema capaz de frear mísseis lançados da Rússia e da China, que têm naquele ponto do globo a rota mais veloz rumo aos EUA.
(NÃO) ESTÁ TUDO AZUL – Macron em Davos: o francês é uma das mais audíveis vozes contra Trump, que anda irritado com ele
Diante da evidente supremacia americana, os europeus pesam até onde esticar a corda, com duas decisões mais imediatas. Para mostrar serviço, soldados da Otan foram enviados à Groenlândia e a União Europeia (UE) congelou o acordo comercial selado com os Estados Unidos após o tarifaço do ano passado. Na quinta-feira 22, lideranças europeias se reuniram em Bruxelas para avaliar uma retaliação que pode vir no mesmo idioma de Trump: impostos sobre produtos dos Estados Unidos. Também repousa à mesa a aplicação de um instrumento anticoerção, sugestivamente batizado de “bazuca”, que limita a atuação de companhias americanas na Europa. “A relação transatlântica está entrando no que se desenha ser sua mais grave crise do pós-guerra para cá”, diz Oren Kesler, CEO da Wikistrat, uma consultoria de risco político.
Entre as mais audíveis vozes do canto europeu do ringue está o presidente francês Emmanuel Macron, que, de óculos espelhados azuis estilo aviador (explicou estar com uma vermelhidão nos olhos), apareceu em Davos enfatizando sua defesa à “bazuca” por causa de manobras de cunho “imperialista” que “visam subordinar a Europa”. Sua ira foi cimentada pelo nada cordial vazamento de mensagens privadas enviadas por ele a Trump, em tom bem menos protocolar do que o dos documentos despachados pela chancelaria. “Meu amigo, eu não entendo o que você está fazendo na Groenlândia”, indignava-se Macron, que é chamado pelo primeiro nome, com sotaque para lá de carregado, por seu par americano. No usual estilo bateu-levou, Trump aventou impor taxas de 200% a vinhos e champanhes franceses, mas aí o enrosco é outro. O francês, que anda defendendo o envio de mais tropas da Otan ao Ártico, recusou-se a integrar o controverso Conselho de Paz, com Trump à frente, para administrar a Faixa de Gaza — uma possibilidade, aliás, ainda em análise pelo Brasil. A formalização do acordo foi assinada no fórum de Davos.
TEMPOS DE PAZ – Truman formaliza a criação da Otan, em 1949: oito décadas de boa parceria com os europeus
Reagindo às provocações de Trump, os groenlandeses saíram às ruas de Nuuk, a capital, sob polares termômetros negativos, agitando bandeiras anti-Estados Unidos, uma cena como nunca se viu. A fixação do republicano pelo quase inabitado território (60 000 pessoas vivem por lá) se explica pela concentração na ilha de riquezas minerais cruciais à economia do presente e do futuro. Além dos Estados Unidos e da própria UE, China e Rússia vêm adotando estratégias para controlar reservas globais, especialmente das chamadas terras-raras, um conjunto de minerais como lítio, cobre e níquel, bastante usados na fabricação de smartphones, carros, baterias e equipamentos militares. Os chineses deram a largada antes dos outros nessa corrida e hoje produzem 60% do suprimento mundial, justamente o atraso que os Estados Unidos brigam para superar. E é aí que entra a maior ilha do mundo, colonizada primeiro pelos vikings, depois pela Dinamarca, no século XVIII, da qual fica a distantes 3 500 quilômetros. A Groenlândia tem 1,5 milhão de toneladas de terras-raras, um colosso que extrapola as fronteiras do território e abarca todo o Círculo Polar Ártico.
As contas feitas pelos líderes de olho na vastidão branca consideram que muito do tesouro ainda está por vir à tona, uma vez que repousa sob calotas de gelo que derretem em velocidade espantosa em razão do aquecimento global. Só de petróleo, são 90 bilhões de barris em toda a área, um terço apenas na Groenlândia, quase tudo por explorar. Nesse ponto do planeta, também as rotas, cada vez mais numerosas durante o verão, são disputadas por descortinar eficazes vias de navegação (
A Casa Branca vem batendo na tecla de compra do território e não cansa de citar a Louisiana, adquirida dos franceses em 1803, e o Alasca, que pertencia à Rússia, em 1867 — ambos à época uma pechincha. Mas as normas internacionais mudaram desde o século XIX, quando a terra era tratada como ativo patrimonial do Estado. Um dos princípios estabelecidos pela Carta da ONU foi o da autodeterminação dos povos, o que significa que tanto a Dinamarca quanto os moradores da Groenlândia, para quem a ilha “não está à venda”, teriam que aprovar a transação. Não é de hoje que o território semiautônomo povoa os sonhos expansionistas dos americanos: o interesse por ele vem e vai e, já no primeiro mandato trumpista, a intenção de domínio por Washington era explícita.
VENDE-SE – Os Estados Unidos compraram o Alasca da Rússia em 1867: época em que a aquisição de terras era comum
O atropelo à noção de soberania de outras nações ganhou força nos Estados Unidos no século XIX, embalado pela ideologia do Destino Manifesto, que pregava ser “direito moral e divino” dos americanos ampliar seu território, justificando assim a anexação de terras. No curso da história, houve ocasiões em que o país derrubou governos e ocupou temporariamente nações consideradas hostis. Desde a Guerra Hispano-Americana, de 1898, porém, nunca mantiveram terras conquistadas pelas armas e jamais se voltaram contra um aliado de longa data que não representasse ameaça. O capítulo agora escrito por Trump, portanto, é um perigoso ponto de inflexão, dada a ambição de expandir seus tentáculos — à maneira Putin, convém insistir. O que os distingue no projeto imperialista é fundamentalmente o método: enquanto o russo tenta reeditar o fausto dos tempos dos czares e o poderio da antiga União Soviética ao engolir os países que orbitam em torno de Moscou, como pretende com a invasão da Ucrânia, o americano busca demarcar zonas de influência no planeta para expandir o poderio militar e econômico dos Estados Unidos. “Trump e Putin adotam uma visão hierárquica do sistema internacional, segundo a qual grandes potências têm direitos especiais e países na sua órbita devem ser submissos”, diz o especialista em relações internacionais João Nyegray, da PUCPR.
Nos agitados corredores de Davos, um contraste em relação à calmaria da paisagem alpina em que a cidade está situada, apostava-se que Putin estaria rindo à toa com todo o enrosco, já que é inimigo número 1 da Otan. Trump é outro que não cai de amores pela aliança à qual pertence, dadas as vultosas somas desembolsadas para pouco resultado, segundo não cansa de repetir. A suposta aliada Dinamarca virou, ao menos por ora, o alvo preferencial. O desgaste entre os Estados Unidos e nações europeias vem subindo de temperatura com a eclosão do conflito na Ucrânia, em 2022: Trump responsabiliza os europeus e seu antecessor Joe Biden, para ele culpado por todos os pecados do mundo, por não ter evitado a guerra. O presidente americano, em tom sempre irônico, olha para o globo terrestre e dispara, com todas as letras: “A Europa não é mais prioridade nossa”. Pode não ser, e resta às autoridades do Velho Continente encontrar um caminho para sair dessa fria, a ponta de um iceberg de colisões ainda incertas.
Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979